Meia Palavra (resenha e sorteio!)

Em março fiz algo inédito nesses meus vinte e poucos anos de leitora: li ficção científica.

E mais: decidi contar a experiência lá no Meia Palavra. Deem uma olhada, sim?

O Meia Palavra é um dos blogs mais consolidados quando o papo é literatura, com resenhas diárias, colunas delíciosas dos membros da equipe e uma seleção semanal de links muito massa. E, tchararam, abril é mês de aniversário do Meia! Em celebração, eles estão com uma promoção INCRÍVEL: basta comentar aqui e concorrer à novíssima edição de Ulysses pela Companhia das Letras + R$ 100,00 (isso mesmo, CEM REAIS) em livros na Saraiva!

Tinha que contar isso aqui =)

Boa sorte para nós e parabéns, Meia Palavra!

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Algumas impressões: Poemas de Wislawa Szymborska

Não sei se sei fazer resenha de livro de poemas. No livro de narrativa, você tem a ação, o esquema narrativo, as personagens principais… o que quase nunca existe num livro de poemas. Nos poemas líricos não há enredos… há sensações. E são elas que ficam, mesmo após muitos dias, semanas, meses, anos… Eu não sou do tipo de pessoa que se lembra de frases, versos. Minha memória é de dar dó. Mas eu sempre me lembro de algo daquilo que leio. Nos romances, guardo com muito carinho meus personagens prediletos. Nos poemas, guardo as sensações. E como resenhar sensações? Prefiro hoje, então, dividir  impressões.

Os sentimentos do poeta passam a me habitar. É muito lindo de sentir. E senti assim com Szymborska. Comprei a coletânea de poemas dela, organizada e traduzida por Regina Przybycien, na semana em que a autora faleceu. Nessa mesma semana, li o belíssimo e delicado texto do Luciano R. M. lá no Meia Palavra e não pude deixar de me envolver com essa polonesa. Ah, e fui seduzida também pela foto da capa do livro. Lembrou-me um pouco a Hilda Hilst. Só que ainda mais sedutora. Mais misteriosa.

Minhas impressões sobre esses textos selecionados é o que quero dividir com vocês. E a mais forte de todas é a aparente simplicidade com que Szymborska compõe os poemas. Eu digo aparente porque ela parece falar de forma simples, como se fosse uma pessoa próxima, da família, porém a profundidade que as figuras poéticas criadas nesses poemas alcançam, olha, não é coisa de conversa banal.

Digo que ela parece uma pessoa próxima porque seu tom é familiar. E carinhoso. Ela divide conosco coisas que todos passamos (como em “Museu”, “Discurso na seção de achados e perdidos” e “Escrevendo um currículo”, para citar alguns escritos) sempre através de um olhar único e comovido diante dos pequenos absurdos da vida (“O currículo tem que ser curto/ mesmo que a vida seja longa”).  Esse modo único de apreender o mundo, fundamental a um bom poeta, também faz com que Szymborska capte os movimentos e transforme-os em sentimentos. E a profundidade desses eventos me comoveram durante a leitura.

“Vietinã” é um dos poemas mais fortes que já li. A guerra está ali (a realidade cruel), a mulher está ali, tudo se mistura. Na guerra, não há identidade, não há personalidade, poucos são os instintos que sobram no ser-humano já devastado. O texto é simples, qualquer pessoa entende. O significado de tudo é tão intenso, forte, como se fosse revelado ali todo o sentimento que há no mundo.  E, em poucas linhas, eu senti isso, pelas palavras, pelos olhos, de Wislawa.

Desmentindo um pouco o que disse no começo desse texto, temos nessa coletânea, alguns personagens que tomam forma e se desfazem no decorrer do poema. Professores, atores, alguns animais e a própria Szymborka são sugeridos liricamente. Mas, reafirmo, o que fica deles é a sensação, já que cada um desses personagens sente o que qualquer pessoa sente e nisso Wyslawa Szymborska se confirma como poeta universal. Tão abrangente. E, ao mesmo tempo, tão pessoal, como se estivesse do meu lado. Como se fosse minha amiga querida.

Szymborska é um dos grandes nomes da poesia mundial, e um nome ímpar na tradição literária da Polônia. Em 1996, ela ganhou o Nobel de literatura, mesmo prêmio ganho por, também polonês, poeta e autor Czeslaw Milowsz em 1980. No Brasil, Wislawa era praticamente desconhecida até a premiação, salvo algumas traduções feitas por Ana Cristina César e o aparecimento de alguns poemas traduzidos em algumas coletâneas de poesia polonesa ou eslava.

Bem, não sei se consegui explicar muito bem. Falar de sensações requer um treino e uma capacidade que acho que não tenho. Mas não poderia deixar passar em branco, aqui no blog, essa leitura tão gostosa. E não poderia colocar na gaveta as emoções que a leitura me trouxe. Precisava dividir com vocês! Essa poesia bem-humorada, aparentemente simples e intensamente profunda merece a leitura. E eu recomendo com muita satisfação!

Detalhes do livro

Poemas – Wislawa Szymborska (tradução e apresentação de Regina Przybycien)

Editora Companhia das Letras, 2011.

Preço: R$40,00 – Comprei aqui.

[AH, fiquei curiosa, vocês gostam de ler poesia???]

Resenha DL de fevereiro: Ássia

Antes da resenha propriamente dita, alguns pequenos esclarecimentos.

1) Não consegui fazer o vídeo do DL desse mês. Droga, mil vezes droga. Tive problemas com a “câmera” que uso (também conhecida como celular do marido) e fiquei com uns vídeos presos lá, sem conseguir subir pro youtube ou vimeo. Bem… em março prometo que os vídeos voltam!

2) Eu tinha prometido a leitura de Anna Karênina esse mês. Não desisti de ler o clássico, só não consegui terminá-lo a tempo. Então, fui obrigada a correr para uma opção mais rapidinha e também interessante. E escolhi Ássia, do Turguêniev. Espero que vocês gostem e me perdoem pela canalhice.

Bem, eu não queria deixar de resenhar um russo esse mês, até porque somente uma representante do idioma mais difícil do mundo, Marina Tsvetáieva, apareceu aqui (e já faz tempo). Escolhi esse texto do Turguêniev porque, junto com Tolstói e Dostoiévski, ele reina entre os grandes prosadores russos do século XIX, mas não recebe tanta atenção aqui no Brasil como os outros dois. Em contraponto com Dostoiévski, Turguêniev é um escritor, podemos dizer, globalizado. Turguêniev viveu muitos anos em países da Europa e foi sempre reconhecido como um gênio por seus colegas “ocidentais” como Henry James, Zola e, principalmente, Flaubert.

Ássia mostra, em pequenas e rápidas 98 páginas, a essência da literatura de Turguêniev. Mesmo com um enredo que tem como espaço a Alemanha, a Rússia está em cada parágrafo do texto, muitas vezes debaixo de críticas veladas, outras vezes em citações de canções e textos que tocam a “alma russa”.

O narrador, também protagonista, é o russo N., como ele mesmo se apresenta, preferindo guardar sua identidade. N. viaja à Alemanha com um intento claro em sua mente: esquecer uma paixão avassaladora mas sem futuro que sentiu por uma dama a tempos atrás.

Durante uma festividade em uma pequena cidade Alemã, N. conhece Ássia (apelido carinhoso de Anna) e Gáguin, também russos que estão na Alemanha por algum motivo que N. desconhece, mas que, inevitavelmente terá que entender, se quiser realmente saber quem são esses jovens.

Gáguin, rapaz russo, de grande cultura, formado nas escolas de São Petersburgo, logo se torna um grande amigo de N., enquanto Ássia, cada vez mais misteriosa e escorregadia, cria entre os jovens uma tensão. O jeito com que Ássia se porta diante das pessoas, sua paixão pela leitura, seu desejo de “não viver em vão” e o mistério de seu passado começam a povoar a mente de N. e a prejudicar sua amizade com Gáguin.

Se for preciso definir, sim, Ássia é uma história de amor. Possui um enredo delicado e poético que nos enlaça nos misterios dos jovens personagens. Porém, essa definição é inútil quando temos na mão uma obra tão cheia de interpretações e rica em significados (como costumam ser as obras de grandes artístas, conhecedores da alma humana). Turguêniev parece querer ser sublinar. Por trás do enredo claro, vemos as mazelas da Rússia, a visão do autor sobre seu pais e a crítica ao sistema de servidão (que ele viria a atacar ainda mais claramente no maravilhoso Pais e filhos (que é de 1860-1862 e a edicão brasileira é da Cosac Naify).

O livrinho de Turguêniev me lembrou muito o livrinho de Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther. A inspiração da estética romântica é paupável nos dois casos mas, ao mesmo tempo, essas obras conseguem tocam os leitores contemporâneos, já que não se prendem a um povo, uma época, uma história. Turguêniev e Goethe tratam de ser humano e, claramente, disso eles entendem bem. E, sem qualquer exagero, posso garantir que a genialidade literária, eles têm também, de sobra.

Resumindo: Turguêniev é o russo que você tem que conhecer e Ássia a russa por quem você irá se apaixonar.

Detalhes

Ássia de Ivan Turguêniev

Tradução de Fátima Bianchi

Ed. Cosac Naify, 2002.

Preço (salgado que só): R$ 41,00. Você acha aqui.

UPDATE Ássia está com 50% (isso mesmo, 50%) de desconto na loja virtual da Cosac, aqui. Outros títulos com o mesmo desconto, aqui! (Dica da @juju_gomes)

 

Resenha de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

Pacientes leitores, eu não morri, mas me ausentei do blog, muito infelizmente. Claro que os culpados são os de sempre (trabalho, correria, trabalho, trabalho…), mas tô com mais uma tarefa que está me enlouquecendo: conseguir fazer a matrícula do meu mestrado. Bem, amanhã devo conseguir dar um basta nesse drama acadêmico e então a desculpa por essa ausência se desfez! EBA! E aqui estou. Espero que a visita cruel do tempo (han, han) não tenha enxotado vocês daí, porque estou de volta! E volto com um livro muito interessante que li esse mês.

Passeando na livraria, peguei pra ver A visita cruel do tempo por dois motivos: a capa tem uma ilustração tão bacana e o livro ganhou o prêmio Pulitzer. Isso pode parecer bizarro, mas eu considero o Pulitzer um dos prêmios gringos mais sérios e, algumas vezes, um tanto negligenciado pelas editoras brasileiras.

Quando peguei o livro nas mãos, folheei e li os burbs (que são vários e muito bem selecionados) que me conveceram. Declarações como: “Inteligente, mordaz, um livro fundador (…)” convencem a gente, poxa! Levei o bonitão pra casa e comecei a ler no mesmo dia.

O livro tem uma construção muito interessante, é fácil lembrar do cinema quando o lemos. Ele é fragmantado e bem plural, com diferentes narradores, diferentes épocas – nada linear – diferentes lugares e, por mais incrível que pareça, essa manta de retalhos funciona muito bem.

Podemos dizer que a obra tem dois grandes personagens: Bennie Salazar, um executivo da industria da música, e sua assistente, a enigmática Sasha. Em volta deles, um leque muito cativante de personagens têm suas vidas contadas e, atráves de cada vida, conhecemos um pouco mais desses dois.

Os personagens vão aparecendo ao poucos e cada capítulo se mostra um livro novo, independente, numa construção com ares pós-modernistas. Apesar do foco que recai, de alguma forma, nos dois personagens que eu citei, em vários capítulos eles não passam de meros coadjuvantes. O passado decadente de Sasha é revelado pelas memórias de seu tio e pelo relato de Rob, seu amigo mais querido da época da faculdade. A banda punk que Bennie liderava, ainda na escola, é contada por uma amiga com quem Bennie já nem tem mais contato. Dessa forma, as histórias vão se misturando e se confundindo, flashes formam o enredo e a gente termina o livro tendo que preencher lacunas com o poder da dedução. E dá pra perceber que é isso mesmo que Egan quer.

O livro me causou uma agonia pois alguns capítulos simplesmente são suspensos em seu ápice e nunca mais são citados… Cabe ao leitor deduzir o fim de Stephanie, Jules, Bosco e tantos outros. Como se o livro fosse uma obra sempre aberta e cabe a quem lê finalizá-la.

O nome dos capítulos também merece uma atenção. Nada é sem-querer na arquitetura bem planejada de Egan.

Para finalizar, dois pontos altos do livro. Amei o capítulo composto só por slides. Quando olhei o livro, antes de comprar, desconfiei muito desse capítulo, achei que não convenceria, que era uma ideia forçada da autora para parecer mais moderna. NÃO É. É um capítulo ótimo, super justificável dentro do enredo, engraçado e cheio de revelações sobre a vida familiar de Sasha (e seus filhos fofos). Outro ponto alto: o futuro. Nos passeios pelo tempo que o livro nos proporciona, um futuro próximo se desenha, como uma pequena ficção científica. Uma manobra corajosa e bem sucedida de Jennifer Egan.

Pensando bem, isso vale para o livro todo: corajoso na forma, cativante no enredo, premiado na inteligência.

Detalhes

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

Editora Intrínseca, 2012.

Preço (que paguei, aqui): R$ 23,92

Curiosidades

A autora, Jennifer Egan, está confirmada para a Flip (ueba!). E a Instrínseca aproveitou a boa recepção de A visita cruel do tempo e comprou os direitos do best-seller da autora, o livro The keep, de 2007 (mais infos, em inglês, aqui)

Muita coisa massa saiu na mídia sobre A visita cruel, como esse mapa das relações entre os personagens do livro, bem interessante, e uma explicação de Jennifer sobre a construção do enredo. Tudo em inglês.

Em português, a Instrínseca liberou um guia de leitura da obra. Não li ainda, mas vale o registro!

Resenha DL de Janeiro: Julie & Julia

Bem, hoje já é dia 27, eu devo ser uma das retardatárias do desafio, maaaas tudo bem! Porque aqui está minha resenha + vídeo (!!!) do livro (gourmet) que li nesse mês.

Julie & Julia

Por Julie Powell

Julie Powell é uma texana, de 29 anos, casada com Eric (com quem começou a namorar na escola!), mora em Nova Iorque e está cansada da sua vida. Está cansada de estar chegando aos trinta, está cansada das cobranças, principalmente para que tenha um filho, está cansada do trabalho sem graça, está cansada da casa longe e desarrumada… e decide que precisa mudar algo. Dentro dela mesma. Mas não tem ideia de que desafio pode propor a si mesma para sacudir essa vidinha besta, meu Deus!

Pois bem, um dia, na casa de sua mãe, no Texas, de pijamas, reclamando da vida, Julie se depara com Mastering the art of french cooking. Um livrão, com 524 receitas, escrito nos anos 1950 por Julia Child. O livro foi o grande “guia” da culinária francesa para as donas de casa americanas da segunda metade do século XX.

Agora, quem é Julia? Pelo que entende-se do livro, eu já deveria saber! Julia Child foi uma mulher extremamente conhecida (nos EUA, claro) por seu talento culinário. Ela chegou a ter um programa da televisão, quando voltou para os Estados Unidos. Mas eu não sabia nada disso. E acho que ninguém que não seja obcecado por comida francesa sabe quem foi essa dita-cuja!

Julie narra sua história em 1a pessoa. Ela é histérica, super emocional e vive uma montanha-russa de sentimentos com esse projeto. Ao mesmo que é instável emocionalmente, Julie é super determinada, corajosa e perseverante. Eu mesma, tenho que dizer, não aguentaria fazer um terço das receitas doidas desse livro!

O livro conta a história das duas. A de Julie é contada mais detalhadamente, quase que receita a receita, neura a neura, crise a crise, baseada nos fatos e nos textos do blog, que Julie montou para o desafio Julie/Julia. A vida de Julia, no entanto, é bem rasa. Somente pequenos trechos nos dão uma pequena ideia de quem era essa mulher tão arrebatadora.

Os personagens secundários são apaixonantes. Gostei mais deles do que da protagonista, confesso. Porém, eles são pouquíssimo explorados. Gwen, Sally e Isabel, as três grandes amigas de Julie, são, de certa forma, influenciadas por esse ano “gastronômico” de Julie e também decidem colocar um… tempero novo em suas vidas. Nada, porém, é tratado com profundidade e gente deixa de ler sobre essas garotas contra a nossa vontade.

Gostei muito do fundo histórico do enredo. A Julie trabalha numa repartição do governo em Nova Iorque, em 2002, isto é, um ano após os atentados de 11 de setembro. E esse “luto” americano é bem forte no livro.

E, um ponto muito bacana, é a relação que a Julie cria com pessoas do mundo todo pelo blog. O blog é fundamental para que ela consiga ver sentido, não só no projeto, mas na vida dela de uma forma mais ampla.

Leitura bem leve e rapidinha de fazer. É bem gostoso, vai dando água na boca, tem momentos engraçados e outros mais reflexivos que, em vários momentos, alcançam até mesmo aqueles que nunca esquentaram a barriga no fogão!

Trecho

Quando Julia fazia crepes nos programas de televisão, ela simplesmente os arremessava para o alto com um movimento brusco da frigideira, não muito diferente da manobra que ela usava para virar omeletes. Eu simplesmente havia concluído que isso era uma ideia maluca. Entretanto, depois de meia hora de gritos e xingamentos, raspando crepes grudados e jogando-os no lixo, parei diante do forno, lambendo o dedo, e pensei: bem, por que não? Afinal, que mal haveria, certo?

— Eric! Ai meu Deus, Eric! Corre aqui!

Eric passara a se esconder durante as sessões de crepe, e relutou em aparecer na cozinha, certo de que estava a ponto de ser sugado em um ataque de fúria.

— O que foi querida?

— Olha isso!!!

Eric ficou do meu lado e viu quando, com um gesto decidivo, fiz o meu belo crepe dourado girar no ar e cair de volta na frigideira.

— Puta que pariu, Julie!

(p. 257)

Capinha feeeeia com o poster do filme. Vocês também não odeiam essas capas?

Detalhes

Julie & Julia, de Julie Powell.

2005

Ed. Record

Preço que comprei (aqui): R$ 39,90 (salgadinho, né?)

Resenha de Linguagem de sinais, de Luiz Schwarcz + algumas coisinhas

Como prometido (e com um pequeno atraso), quero dividir com vocês as minhas impressões sobre três dos livros que li ano passado. São eles: Criança 44, de Tom Rob Smith, Indícios flutuantes, de Marina Tsvetáieva e Linguagem de sinais, de Luiz Schwarcz — que é por onde começo.

Linguagem de sinais era para ser um romance que, por força da vida (e dos outros editores da Companhia das Letras), foi se picotando em pequenos fragmentos, transformando-se num livro de contos (11 contos, na verdade) que orbitam  em volta de temas em comum.

Na época que comprei o livro (no lançamento), eu estava meio viciada no Luiz Schwarcz. Como leitora, sou fã de muitos escritores. Como editora assistente, sou fã de muitos editores. Seus trabalhos me interessam, suas histórias, enfim… a trajetória pela profissão que amo. Eu estava lendo muita coisa sobre o Schwarcz e a Companhia quando comprei esse livro. Queria ver como anos de edição de textos poderiam se refletir na escrita. Não me decepcionei!

Lajos, o personagem central no primeiro conto (que, de uma forma ou de outra, nos acompanha por quase todo livro), descreve uma viagem de avião para Portugal. O que seria um voo normal torna-se um passeio pela vida de Lajos quando um senhor com Alzheimer impede que o voo decole. Na interrupção causada pela confusão que se instaura no avião graças a esse senhor, Lajos vai nos contanto sobre sua infância, seu casamento fracassado, sua ex-mulher, Antônia.

Antônia também é ponto fundamental na interessante arquitetura de Linguagem de sinais. Ela, nos conta Lajos, trabalhava com deficientes auditivos e era fascinada por Beethoven e Goya, bem como pela linguagem de LIBRAS, que logo reconhecemos no título do livro.

As reflexões de Lajos encontram em Antônia um enigma: ele mesmo não entende porque casou-se com ela, ou mesmo como pode estar tanto tempo nesse relacionamento. E, partindo da sua infeliz vida conjugal, ele revê suas outras relações afetuosas, principalmente como elas existiam no passado. As coisas que aconteceram e que não podem ser revividas ou mudadas ecoam o tempo todo na escrita de Schwarcz, permeando com ternura (e esse foi o sentimento que mais senti em cada conto) o pequeno livro.

Destoa muito dessa construção, o conto “O síndico”. Nele, duas garotas que dividem um apartamento sentem-se seguidas pelo síndico do condomínio. Não entendi exatamente o que esse conto faz dentro de Linguagem de sinais. Talvez valha ler novamente, daqui um tempo, e tentar apreender… mas, já digo, foi o conto que não gostei.

A surdez, o judaísmo e as relações familiares são temas centrais que, graças ao engenho do autor, ligam os pontos de cada conto. Dessa forma, é impossível ler uma história só. As narrativas se conectam de forma sutil. A escrita e Schwarcz é leve, bem fluida e, em certos momentos, atinge um tom poético encantador. Há passagens que realmente me fizeram refletir como seria o romance que fora abandonado pelo autor. Bem, não sei se um dia saberemos. Mas o que posso afirmar é a recomendação que já havia feito no vídeo a respeito do livro. A leitura é rápida, os contos são breves. A intimidade que alcançamos com os personagens é quase imediata. A linguagem de sinais, imediatamente ligada à surdez, recebe, então outra conotação. Paramos para pensar nos sinais que recebemos durante a vida, como nos comunicamos além das palavras…

Recomendo MESMO.

 

Detalhes

Linguagem de sinais, de Luiz Schwarcz.

Companhia das Letras, 2010.

103 páginas.

Preço sugerido: R$33,00

 

 

Outras coisinhas

Recebi logo cedo, por minha amiga Josi, esse vídeo FOFO, em stop motion, Já viram?

Fofura, né?

 

 

E também, recebi pelo facebook, a lista dos prováveis lançamentos de 2012 das principais editoras. A gente sabe que muito se promete, mas nem tudo se consegue cumprir quanto a prazos na área editorial. Há um monte de fatores que podem prejudicar um andamento… mas se tudo sair como esperado, os lançamentos de 2012 estão aqui, no Casmurros. (Obrigada pela dica, Katrina!).

 

É isso, gente. Ainda essa semana, as outras 2 resenhas!