Algumas impressões: Poemas de Wislawa Szymborska

Não sei se sei fazer resenha de livro de poemas. No livro de narrativa, você tem a ação, o esquema narrativo, as personagens principais… o que quase nunca existe num livro de poemas. Nos poemas líricos não há enredos… há sensações. E são elas que ficam, mesmo após muitos dias, semanas, meses, anos… Eu não sou do tipo de pessoa que se lembra de frases, versos. Minha memória é de dar dó. Mas eu sempre me lembro de algo daquilo que leio. Nos romances, guardo com muito carinho meus personagens prediletos. Nos poemas, guardo as sensações. E como resenhar sensações? Prefiro hoje, então, dividir  impressões.

Os sentimentos do poeta passam a me habitar. É muito lindo de sentir. E senti assim com Szymborska. Comprei a coletânea de poemas dela, organizada e traduzida por Regina Przybycien, na semana em que a autora faleceu. Nessa mesma semana, li o belíssimo e delicado texto do Luciano R. M. lá no Meia Palavra e não pude deixar de me envolver com essa polonesa. Ah, e fui seduzida também pela foto da capa do livro. Lembrou-me um pouco a Hilda Hilst. Só que ainda mais sedutora. Mais misteriosa.

Minhas impressões sobre esses textos selecionados é o que quero dividir com vocês. E a mais forte de todas é a aparente simplicidade com que Szymborska compõe os poemas. Eu digo aparente porque ela parece falar de forma simples, como se fosse uma pessoa próxima, da família, porém a profundidade que as figuras poéticas criadas nesses poemas alcançam, olha, não é coisa de conversa banal.

Digo que ela parece uma pessoa próxima porque seu tom é familiar. E carinhoso. Ela divide conosco coisas que todos passamos (como em “Museu”, “Discurso na seção de achados e perdidos” e “Escrevendo um currículo”, para citar alguns escritos) sempre através de um olhar único e comovido diante dos pequenos absurdos da vida (“O currículo tem que ser curto/ mesmo que a vida seja longa”).  Esse modo único de apreender o mundo, fundamental a um bom poeta, também faz com que Szymborska capte os movimentos e transforme-os em sentimentos. E a profundidade desses eventos me comoveram durante a leitura.

“Vietinã” é um dos poemas mais fortes que já li. A guerra está ali (a realidade cruel), a mulher está ali, tudo se mistura. Na guerra, não há identidade, não há personalidade, poucos são os instintos que sobram no ser-humano já devastado. O texto é simples, qualquer pessoa entende. O significado de tudo é tão intenso, forte, como se fosse revelado ali todo o sentimento que há no mundo.  E, em poucas linhas, eu senti isso, pelas palavras, pelos olhos, de Wislawa.

Desmentindo um pouco o que disse no começo desse texto, temos nessa coletânea, alguns personagens que tomam forma e se desfazem no decorrer do poema. Professores, atores, alguns animais e a própria Szymborka são sugeridos liricamente. Mas, reafirmo, o que fica deles é a sensação, já que cada um desses personagens sente o que qualquer pessoa sente e nisso Wyslawa Szymborska se confirma como poeta universal. Tão abrangente. E, ao mesmo tempo, tão pessoal, como se estivesse do meu lado. Como se fosse minha amiga querida.

Szymborska é um dos grandes nomes da poesia mundial, e um nome ímpar na tradição literária da Polônia. Em 1996, ela ganhou o Nobel de literatura, mesmo prêmio ganho por, também polonês, poeta e autor Czeslaw Milowsz em 1980. No Brasil, Wislawa era praticamente desconhecida até a premiação, salvo algumas traduções feitas por Ana Cristina César e o aparecimento de alguns poemas traduzidos em algumas coletâneas de poesia polonesa ou eslava.

Bem, não sei se consegui explicar muito bem. Falar de sensações requer um treino e uma capacidade que acho que não tenho. Mas não poderia deixar passar em branco, aqui no blog, essa leitura tão gostosa. E não poderia colocar na gaveta as emoções que a leitura me trouxe. Precisava dividir com vocês! Essa poesia bem-humorada, aparentemente simples e intensamente profunda merece a leitura. E eu recomendo com muita satisfação!

Detalhes do livro

Poemas – Wislawa Szymborska (tradução e apresentação de Regina Przybycien)

Editora Companhia das Letras, 2011.

Preço: R$40,00 – Comprei aqui.

[AH, fiquei curiosa, vocês gostam de ler poesia???]

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Poesia Suspensa: literatura nos muros da Holanda

O post de hoje é uma colaboração do tradutor Daniel Dago! Espero que gostem =)

Leiden, na Holanda, é realmente um lugar maravilhoso. Famosa por ser a cidade dos estudantes, de1995 a2005, fizeram um projeto incrível. Há espalhado por toda a cidade pinturas de poesias do mundo inteiro. Não é coisa pequena, não. São feitas em paredes enormes. E estão no idioma original (algumas têm uma pequena plaquinha com a tradução para o holandês). Um belo exemplo é a de Carlos Drummond de Andrade na Middelstegracht, nº 87:

Em língua portuguesa, além de Camões, há também Fernando Pessoa:

A de Jorge Luis Borges é uma das mais bonitas:

A de Apollinaire talvez seja a mais elegante:

Claro que tem vários poetas holandeses, como J. J. Slauerhoff:

Idiomas que não usam o alfabeto latino marcam presença, como o russo Aleksandr Blok:

O georgiano Shota Rustaveli:

O japonês Matsuo Bashõ:

Para finalizar, o paquistanês que escrevia em urdu, Nasir Kazmi:

Quase todas as fotos acima se encontram na página do projeto poesias no muro (em holandês). Outras estão na listagem do Wikipédia (em holandês).

Colaboração de Daniel Dago 

Lindo, né? Em São Paulo estamos mais acostumados com muitos grafitis, que já revelaram muitos nomes da arte de rua pro mundo, mas não ia ser nada mal encontrar uns pedacinhos de poesia na correria de SP.

O Daniel é tradutor de Holandês e está firme e forte no propósito de divulgar a literatura holandesa no Brasil. Ele também escreveu um post muito interessante no Meia Palavra sobre o tema. Vale a leitura!