Por que amamos livrarias?

Vi, certa vez, alguém dizer que as grandes livrarias são como supermercados de livros. Discordo. Seja uma livraria grande, imponente, bem abastecida, ou uma livraria pequena, de bairro, intimista… Não importa. Esse lugar, onde os livros ficam, tem uma áurea única. Não é como no mercado “pegue o arroz mais em conta”. Tem algo mais…

Lembro que, desde muito pequena, fiquei apaixonada por livrarias. Conheci primeiro as de shopping. Ainda não eram as megastore que são hoje, mas já eram grandes, cheias de volumes de todos os tipos, cores, cheiros (cheiro de livro é sempre bom, né? Novo, velho, tanto faz!). Lembro nitidamente de correr para a parte de livros infantis, olhar as capas, sentar no chão e deixar minha mãe louca da vida de preocupação porque não me achava entre as prateleiras.

Lembro com muita clareza também da biblioteca da minha escola. Lembro que ela não tinha um terço da graça da livraria. A gente nunca podia entrar no acervo, que era meticulosamente escolhido pelos professores da escola. Só podia tocar no livro depois de escolhido (numa lista) e de feito o empréstimo. Cada livro podia ficar emprestado por só uma semana e depois, tinha que ser devolvido. Eu achava o processo tão chato, tão chato, que cresci achando que bilbioteca era isso: tudo o que a professora queria que eu lesse, sem graça, sem charme. A livraria era diferente. A gente podia encostar em quantos livros conseguisse carregar, bagunçar tudo, sentar em qualquer lugar e ler, ler, ler até a mãe gritar “Raqueeeeeeeeeeeeeel”.

E desde então, a livraria virou, pra mim, sinônimo de prazer. Muitas vezes, saí de lá sem comprar nada, mas sempre fiz questão de ir dar uma conferida nas capas novas, tatear os lançamentos, ver as novas edições de clássicos. Quando as megastore chegaram, nossa, lembro da emoção. Eu sentia palpitação na Saraiva Mega Store do shopping perto de casa. A Cultura da Paulista então, Meu Deus!, sinto palpitação ainda hoje.

No último domingo, sentei em frente à Livraria Cultura e observei. As livrarias estão cada vez mais cheias. Num fim de semana, um sem número de pessoas entra, sai, circula entre as prateleiras e, em muitos casos, sai de mãos vazias. Eu vi. Foi então que percebi porque amamos tanto as livrarias.

Nelas, há poucas regras, diferentes de bibliotecas. Você pode pegar um livro e começar a falar sobre ele a vontade com quem estiver com você, sem ter que ouvir o famigerado “shhhhhiu”. Em cidades com pouco verde, pouca sombra, como São Paulo, as livrarias são as novas praças! As pessoas se achegam, se reúnem, sentam, batem um papo, se atualizam, marcam encontros, pesquisam, leem tranquilas.

Claro que, conforme fui crescendo, reformulei minha opinião sobre as bibliotecas. Conheci algumas que tocaram minha vida (ou salvaram-na, em muitos casos). Como a charmosa e grandiosa biblioteca da FFLCH/USP (onde me formei), como a biblioteca Mario de Andrade, linda, única, no coração de São Paulo, como a Alceu Amoroso Lima, aqui no meu bairro, especializada em poesia (e onde li meu primeiro Sartre, como esquecer?), e tantas outras. Sei da importância absurda das bibliotecas, como elas é preciso que elas cheguem a bairros mais afastados das cidades, e à cidades mais distantes e como são fundamentais na formação de leitores e apaixonados por livros. Talvez, o que hoje deixe às bibliotecas na retaguarda do interesse seja uma questão administrativa. Temos bibliotecas lindas em São Paulo, como citei, mas a maioria está jogada à própria sorte, sem nenhum tipo de modernização, atualização de acervo ou até mesmo condições básicas como boa iluminação, banheiros, cadeiras… E, assim, perdem leitores!

Porém, aqueles que já tem gosto pela coisa, por mais que frequentem bibliotecas, entregam-se a tentação de tomar um cafezinho na livraria, bater papo com seu livreiro e respirar o mesmo ar que aqueles livros todos, mesmo que por alguns instantes.

As livrarias, por outro lado, são fáceis de se amar. São feitas para isso. Para seduzir que passa na porta, pra atiçar quem já entrou. E, muitas vezes, funciona! A livraria não ocupa – e jamais poderá ocupar – o papel da biblioteca. São duas casas diferentes para os livros habitarem e, onde eles estiverem, quero também estar.

Anúncios