Resenha de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

Pacientes leitores, eu não morri, mas me ausentei do blog, muito infelizmente. Claro que os culpados são os de sempre (trabalho, correria, trabalho, trabalho…), mas tô com mais uma tarefa que está me enlouquecendo: conseguir fazer a matrícula do meu mestrado. Bem, amanhã devo conseguir dar um basta nesse drama acadêmico e então a desculpa por essa ausência se desfez! EBA! E aqui estou. Espero que a visita cruel do tempo (han, han) não tenha enxotado vocês daí, porque estou de volta! E volto com um livro muito interessante que li esse mês.

Passeando na livraria, peguei pra ver A visita cruel do tempo por dois motivos: a capa tem uma ilustração tão bacana e o livro ganhou o prêmio Pulitzer. Isso pode parecer bizarro, mas eu considero o Pulitzer um dos prêmios gringos mais sérios e, algumas vezes, um tanto negligenciado pelas editoras brasileiras.

Quando peguei o livro nas mãos, folheei e li os burbs (que são vários e muito bem selecionados) que me conveceram. Declarações como: “Inteligente, mordaz, um livro fundador (…)” convencem a gente, poxa! Levei o bonitão pra casa e comecei a ler no mesmo dia.

O livro tem uma construção muito interessante, é fácil lembrar do cinema quando o lemos. Ele é fragmantado e bem plural, com diferentes narradores, diferentes épocas – nada linear – diferentes lugares e, por mais incrível que pareça, essa manta de retalhos funciona muito bem.

Podemos dizer que a obra tem dois grandes personagens: Bennie Salazar, um executivo da industria da música, e sua assistente, a enigmática Sasha. Em volta deles, um leque muito cativante de personagens têm suas vidas contadas e, atráves de cada vida, conhecemos um pouco mais desses dois.

Os personagens vão aparecendo ao poucos e cada capítulo se mostra um livro novo, independente, numa construção com ares pós-modernistas. Apesar do foco que recai, de alguma forma, nos dois personagens que eu citei, em vários capítulos eles não passam de meros coadjuvantes. O passado decadente de Sasha é revelado pelas memórias de seu tio e pelo relato de Rob, seu amigo mais querido da época da faculdade. A banda punk que Bennie liderava, ainda na escola, é contada por uma amiga com quem Bennie já nem tem mais contato. Dessa forma, as histórias vão se misturando e se confundindo, flashes formam o enredo e a gente termina o livro tendo que preencher lacunas com o poder da dedução. E dá pra perceber que é isso mesmo que Egan quer.

O livro me causou uma agonia pois alguns capítulos simplesmente são suspensos em seu ápice e nunca mais são citados… Cabe ao leitor deduzir o fim de Stephanie, Jules, Bosco e tantos outros. Como se o livro fosse uma obra sempre aberta e cabe a quem lê finalizá-la.

O nome dos capítulos também merece uma atenção. Nada é sem-querer na arquitetura bem planejada de Egan.

Para finalizar, dois pontos altos do livro. Amei o capítulo composto só por slides. Quando olhei o livro, antes de comprar, desconfiei muito desse capítulo, achei que não convenceria, que era uma ideia forçada da autora para parecer mais moderna. NÃO É. É um capítulo ótimo, super justificável dentro do enredo, engraçado e cheio de revelações sobre a vida familiar de Sasha (e seus filhos fofos). Outro ponto alto: o futuro. Nos passeios pelo tempo que o livro nos proporciona, um futuro próximo se desenha, como uma pequena ficção científica. Uma manobra corajosa e bem sucedida de Jennifer Egan.

Pensando bem, isso vale para o livro todo: corajoso na forma, cativante no enredo, premiado na inteligência.

Detalhes

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

Editora Intrínseca, 2012.

Preço (que paguei, aqui): R$ 23,92

Curiosidades

A autora, Jennifer Egan, está confirmada para a Flip (ueba!). E a Instrínseca aproveitou a boa recepção de A visita cruel do tempo e comprou os direitos do best-seller da autora, o livro The keep, de 2007 (mais infos, em inglês, aqui)

Muita coisa massa saiu na mídia sobre A visita cruel, como esse mapa das relações entre os personagens do livro, bem interessante, e uma explicação de Jennifer sobre a construção do enredo. Tudo em inglês.

Em português, a Instrínseca liberou um guia de leitura da obra. Não li ainda, mas vale o registro!